Insulina Não É um “Atalho” para Ganho Muscular

A notícia sobre a morte de competidores de fisiculturismo ou bodybuilding tem se tornado constante nas redes sociais, jornais e revistas digitais. Recentemente, um jovem fisiculturista e influencer digital morreu aos 22 anos por possível hipoglicemia. Mas, por que esses ditos atletas fazem uso desse hormônio, a insulina?

A descoberta da insulina, em 1921, representou uma das maiores revoluções da medicina, ganhadora do prêmio Nobel. Ela transformou o tratamento do diabetes tipo 1, que antes era uma sentença de morte, em uma condição viável e tratável. Esse hormônio é produzido naturalmente pelo pâncreas e funciona como uma chave que permite a entrada da glicose nas células do corpo, fornecendo energia e mantendo os níveis de açúcar estáveis no sangue.

Justamente por seu mecanismo de ação no transporte de nutrientes, a insulina é desviada de seu propósito terapêutico e usada no mundo do fisiculturismo (primeiros relatos de abuso e morte datam dos anos 90). Seu uso indevido visa forçar o corpo a um estado de anabolismo extremo.

De forma simples para compreendermos, a insulina, usada nos esportes de força, não constrói músculo por si só, mas age como uma poderosa transportadora. Quando injetada, ela age nos receptores das células musculares para que a glicose e os aminoácidos, ingeridos em grandes quantidades entrem rapidamente, servindo como substrato energético. Esse processo usa a glicose pelo tecido muscular de forma acelerada, dando mais volume às células, e, também, bloqueia a quebra de proteínas musculares. Ao inibir esse catabolismo (a destruição de células musculares), a insulina cria um ambiente ideal para que outras substâncias, como os esteroides anabolizantes, trabalhem na síntese de novos tecidos (muito desses atletas também a associam com o hormônio do crescimento, GH)
A busca artificial pela hipertrofia cobra um preço que frequentemente é fatal. O risco mais imediato da insulina é a hipoglicemia severa e um erro mínimo no cálculo da dose, ou um simples atraso de uma refeição, pode abaixar o açúcar no sangue (hipoglicemia) a níveis perigosos, levando a convulsões, dano cerebral irreversível (edema) e a morte súbita.

Nesse cenário é comum a polifarmácia, e a insulina raramente é a única vilã. A interações com outros medicamentos potencializam os riscos de colapso do corpo. Para alcançar a definição muscular extrema, o abuso de diuréticos, que desidratam o corpo a ponto de levar a um desequilíbrio hidroeletrolítico que pode causar, entre outras condições, uma parada cardiovascular. Outro uso alarmante: muitos recorrem ao hormônio da tireoide T3 para acelerar o metabolismo e queimar gordura, sendo o abuso dessa substância causadora do descontrole da tireoide, provocando arritmias fatais e um distúrbios chamado tempestade tireoidiana (em uma explicação simples, o corpo fica num estado de hipermetabolismo letal).

Insulina não é um “atalho” para ganho muscular. É uma medicação séria, que salva vidas quando usada corretamente no tratamento do diabetes, mas que pode custar vidas quando utilizada de maneira irresponsável para fins estéticos ou de performance.

Renato Redorat e Flavio Pirozzi são médicos e membros e coordenadores de departamentos da Sociedade Brasileira de Diabetes. Renato Redorat é do departamento de pré-diabetes e coordenador de endocrinologia e medicina do esporte da IDOMED. Flavio Pirozzi é do departamento de pré-diabetes da SBD e vice-presidente da SBD-SP.