Ministério da Saúde amplia acesso à insulina glargina no SUS e orienta transição terapêutica na Atenção Primária

Nova Nota Técnica Conjunta nº 169/2026 atualiza critérios para migração da insulina NPH para glargina, fortalecendo o cuidado às pessoas com Diabetes Mellitus na APS

O Ministério da Saúde publicou a Nota Técnica Conjunta nº
169/2026-DAF/SCTIE/DEPROS/SAPS/DAET/SAES/MS, que atualiza as orientações para a transição da insulina humana NPH para a insulina análoga de ação prolongada (glargina) no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS) no Sistema Único de Saúde (SUS).

A medida amplia o acesso à insulina glargina, consolidando uma estratégia nacional voltada à qualificação do cuidado, segurança do paciente e sustentabilidade do abastecimento de insulinas no SUS. A iniciativa considera o cenário internacional de restrição na produção de insulinas humanas e busca garantir continuidade terapêutica às pessoas com Diabetes Mellitus (DM).

Quem passa a ter acesso à insulina glargina na APS?
A nova estratégia define como público elegível:

  • Crianças e adolescentes com Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1), com idade igual ou superior a 2 anos e inferior a 18 anos;
  • Pessoas com 70 anos ou mais, com Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1) ou Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2).

A APS como coordenadora do cuidado

A transição terapêutica deve ocorrer de forma organizada, com avaliação clínica individualizada, acompanhamento longitudinal e integração entre equipes da Atenção Primária, Assistência Farmacêutica e Atenção Especializada, quando necessário.

A prescrição deve seguir os fluxos municipais estabelecidos, garantindo continuidade do tratamento e segurança do usuário. Pessoas acompanhadas atualmente pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF) permanecem, neste momento, seguindo os fluxos vigentes, evitando duplicidade de fornecimento.

Como realizar a transição da NPH para a glargina?
A insulina glargina deve ser administrada:

  • Uma vez ao dia;
  • Em horário fixo (manhã ou noite);
  • Geralmente sem necessidade de segunda dose diária.

A substituição da insulina basal não significa troca automática da insulina prandial (bolus). O ajuste deve ser individualizado, conforme glicemia de jejum, monitoramento glicêmico e resposta clínica.

Para usuários em uso de NPH:

  • NPH uma vez ao dia: conversão mantendo equivalência de dose (1:1);
  • NPH duas ou mais vezes ao dia: redução aproximada de 20% da dose total diária de NPH e aplicação da glargina uma vez ao dia, preferencialmente no horário correspondente à maior dose anterior de NPH.

Após a mudança, a titulação deve ser individualizada, com base principalmente na glicemia de jejum, podendo ocorrer ajustes em intervalos de até três dias quando necessário.

A mudança terapêutica exige orientação ao usuário, familiares e cuidadores sobre:

  • horário correto da aplicação;
  • técnica adequada de uso da caneta;
  • reconhecimento dos sinais de hipoglicemia;
  • monitoramento glicêmico mais frequente nas primeiras semanas.

A recomendação é que decisões clínicas, ajustes de dose e eventos adversos sejam registrados no prontuário eletrônico, fortalecendo a continuidade do cuidado na APS.

Ferramenta de apoio aos profissionais: Calculadora de Conversão NPH → Glargina

Para apoiar aos profissionais e equipes da APS na tomada de decisão clínica, foi disponibilizada uma calculadora de apoio para estimativa da conversão terapêutica:

🔗 Calculadora de transição Insulina NPH → Insulina Glargina:
https://inovasaude.shinyapps.io/glargina/

A ferramenta auxilia no cálculo inicial da dose conforme o esquema atual de NPH, seguindo os parâmetros descritos na Nota Técnica Conjunta nº 169/2026.

Alerta sobre excesso de insulina basal

Durante a transição da NPH para glargina, a dose prévia de NPH deve ser interpretada com cautela. Em alguns pacientes, especialmente quando a NPH representa proporção elevada da dose total diária ou quando há uso insuficiente de insulina prandial, parte da dose basal pode estar sendo utilizada para compensar a necessidade prandial não coberta adequadamente.

Nesses casos, a conversão automática da dose total de NPH para glargina, mesmo com redução percentual padronizada de 20%, pode manter ou perpetuar excesso de insulina basal, aumentando o risco de hipoglicemia, principalmente no período noturno e de madrugada. A transição deve ser utilizada como oportunidade para reavaliar a necessidade basal real, reorganizar a proporção basal/prandial e ajustar a insulina das refeições quando indicada.

Como referencial clínico, em esquemas basal-bolus, a insulina basal costuma ser de até 0,5u/kg de peso corporal, podendo chegar a 0,75u/kg para pacientes com obesidade importante . Quando a dose basal estimada ultrapassa esse intervalo, especialmente na presença de hipoglicemias, quedas glicêmicas noturnas, fragilidade, doença renal, irregularidade alimentar ou grande variabilidade glicêmica, recomenda-se reavaliar o esquema antes da conversão e considerar redução mais conservadora da dose basal, com monitorização glicêmica intensificada nas primeiras semanas.

Uma nova etapa no cuidado da pessoa com Diabetes no SUS

A ampliação do acesso à insulina glargina representa uma evolução na linha de cuidado da pessoa com diabetes, fortalecendo a APS como espaço de acompanhamento contínuo, qualificação da assistência farmacêutica e uso seguro das tecnologias em saúde.

A implementação será gradual, conforme organização dos estados e municípios, disponibilidade logística e monitoramento do consumo real da população atendida.

Profissionais da APS: a transição deve ser planejada, acompanhada e registrada. A nova insulina está disponível para ampliar o cuidado — com segurança, responsabilidade e foco no paciente.