ARTIGO COMENTADO – Comparative efficacy of dietary interventions for glycemic control and pregnancy outcomes in gestational diabetes: a network meta-analysis of randomized controlled trials
O diabetes mellitus gestacional (DMG) é uma condição metabólica de grande relevância clínica e epidemiológica, associada a riscos maternos e fetais tanto no curto quanto no longo prazo. A terapia nutricional constitui um dos pilares do tratamento e é fundamental para alcançar e manter o controle glicêmico adequado, sempre integrada a uma abordagem interdisciplinar.
Neste estudo recente, foi conduzida uma revisão sistemática com meta-análise em rede, envolvendo 28 ensaios clínicos randomizados e um total de 2.666 gestantes com DMG. Foram avaliadas sete estratégias dietéticas distintas: dieta de baixo índice glicêmico (19 estudos), dieta DASH – Dietary Approaches to Stop Hypertension (4 estudos), dietas com baixo teor de carboidratos (4 estudos), dieta de baixa carga glicêmica (1 estudo) e dieta combinando baixo teor de carboidratos com DASH (1 estudo). Os desfechos primários incluíram glicemia de jejum, glicemia pós-prandial de 2 horas, resistência insulínica (HOMA-IR) e desfechos obstétricos adversos, como cesariana, macrossomia e hipertensão gestacional.
Os resultados indicaram que a dieta DASH foi a intervenção mais eficaz para o controle glicêmico, promovendo reduções significativas na glicemia de jejum, na glicemia pós-prandial de 2 horas e no HOMA-IR. Tanto a dieta DASH quanto a dieta de baixo índice glicêmico demonstraram impacto positivo sobre os desfechos obstétricos. A dieta DASH esteve associada a uma redução de 46% no risco de cesariana (OR = 0,54; IC 95%: 0,40–0,74), enquanto a dieta de baixo índice glicêmico apresentou redução de 88% no risco de macrossomia (OR = 0,12; IC 95%: 0,03–0,51).
A dieta DASH, originalmente desenvolvida para controle da pressão arterial, caracteriza-se pelo elevado consumo de frutas, vegetais, grãos integrais, laticínios com baixo teor de gordura, proteínas magras, oleaginosas e sementes, priorizando gorduras saudáveis como o azeite de oliva. É um padrão alimentar com baixo teor de sódio (1.500–2.300 mg/dia), açúcares adicionados e gorduras saturadas/trans, resultando em alta densidade de fibras, potássio, cálcio e magnésio. Esse perfil nutricional contribui para melhorar a sensibilidade à insulina e reduzir glicemias de jejum e pós-prandiais.
Já a dieta de baixo índice glicêmico baseia-se na escolha de carboidratos que promovem liberação lenta de glicose, evitando picos pós-refeição. Inclui alimentos como leguminosas, cereais integrais, frutas como maçã e pera e vegetais não amiláceos, combinados a proteínas e ácidos graxos insaturados para atenuar ainda mais a resposta glicêmica.
Embora não exista um padrão alimentar único e “milagroso” para o manejo do DMG, esta meta-análise em rede sugere que tanto a dieta DASH quanto a de baixo índice glicêmico são estratégias eficazes, com a primeira mostrando desempenho superior para controle glicêmico e ambas associadas à redução de desfechos obstétricos adversos. Estudos adicionais, com desenho robusto e amostras diversificadas, são necessários para confirmar esses achados e subsidiar recomendações nutricionais cada vez mais precisas e personalizadas na prática clínica.
Referência: Di J, Fan J, Ma F. Comparative efficacy of dietary interventions for glycemic control and pregnancy outcomes in gestational diabetes: a network meta-analysis of randomized controlled trials. Front Endocrinol. 2025;16:1512493. https://doi.org/10.3389/fendo.2025.1512493
- Nutricionista pelo Centro Universitário São Camilo;
- Mestre em Ciências (Endocrinologia Clínica) pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP);
- Especialização em Saúde da Mulher e em Nutrição Esportiva e Obesidade pela Universidade de São Paulo (USP);
- Educadora em Diabetes (IDF-SACA/ADJ/SBD);
- Membro do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes (gestão 2024 -2025).