Consumo de ovos e risco de doença cardiovascular em indivíduos saudáveis epessoas com diabetes

Até 2015, diretrizes como a American Heart Association e Dietary Guidelines for Americans, recomendavam uma ingestão diária de colesterol dietético de até 300 mg, visando minimizar desfechos clínicos e prevenir doenças arteriais coronarianas (DAC)¹. Estudos de intervenção mostraram que, ao comparar doses de 500–900 mg/dia de colesterol dietético com doses de controle houve um aumento estatisticamente significativo nos níveis de colesterol total, LDL-c e HDL-c².
Embora se saiba que apenas 30% do que é consumido eleve os níveis de colesterol sérico, enquanto o restante é produzido de forma endógena, as diretrizes não estabelecem limites para o consumo de colesterol. Nesse contexto, muito se fala sobre um alimento bastante consumido no Brasil: os ovos, rico em colesterol (uma unidade grande contém cerca de 275 mg), mas fonte de proteína de alto valor biológico, e que devem ser incluídos em uma dieta saudável, inclusive para pessoas com diabetes¹.
Uma das maiores meta-análises que utilizou ensaios clínicos randomizados com indivíduos saudáveis, explorou o impacto do consumo de ovos na relação LDL-c/HDL-c e revelou que um maior consumo (2 unidades por dia) pode influenciar os riscos de doenças cardiovasculares, aumentando o LDL-c e a relação LDL-c/HDL-c. Contudo, o estudo ressalta que são necessários ensaios clínicos randomizados com acompanhamento a longo prazo para confirmar essa associação¹.
Uma coorte prospectiva que avaliou o consumo de ovos e mortalidade em adultos nos EUA, encontrou que relação entre a ingestão de colesterol e mortalidade varia conforme o nível de consumo: uma associação inversa foi observada em indivíduos com ingestão abaixo de 250 mg/dia, enquanto uma associação positiva ocorreu em quem consumia 250 mg/dia ou mais. Assim, os autores sugerem que consumir até um ovo por dia pode fazer parte de uma dieta saudável3.
O aumento do colesterol na dieta e o consumo de ovos (50g por dia) também foram associados a um risco elevado de mortalidade geral e por doenças cardiovasculares, com associações significativas em coortes dos EUA (aumento de 8% no risco de DCV) e uma associação positiva mas não significativa em coortes europeias. Esses resultados sugerem que a restrição do consumo de colesterol dietético pode ser benéfica para a saúde a longo prazo4.
Em pessoas com diabetes, uma revisão sistemática publicada em 2013 no American Journal of Clinical Nutrition evidenciou que o consumo de um ovo ou mais por dia estava associado a um aumento de 69% no risco de doenças cardiovasculares em comparação com aquelas que consumiam menos de um ovo por semana5. Por outro lado, duas coortes prospectivas não encontraram aumento significativo no risco de insuficiência cardíaca (IC) com o consumo diário de ovos, embora um consumo superior a um ovo por dia tenha elevado em 30% o risco de IC entre homens6.
A revisão das metanálises sobre o tema não apresenta conclusões definitivas, possivelmente devido à variação na absorção de colesterol e nos perfis lipídicos, que dependem de fatores genéticos ainda não bem compreendidos7. Por exemplo, o estudo Diabeeg8, que incluiu indivíduos com pré-diabetes ou diabetes tipo 2, não encontrou alterações adversas nos fatores de risco cardiovascular após uma dieta rica em ovos durante doze meses (com uma fase de perda de peso de três meses), sugerindo que até 12 ovos por semana (menos de 2 por dia) podem ser seguros para essas populações.
Outro estudo envolvendo 320.778 indivíduos com diabetes sugere uma associação dose-resposta entre o consumo de ovos e o risco de DCV e diabetes9. A etnia e a forma de preparo dos ovos também mostraram influenciar esse risco, resultando em inconsistências nos resultados10.
Evidências recentes de ensaios clínicos randomizados indicam que um maior consumo de ovos pode aumentar os níveis de colesterol total e a proporção entre LDL-c e HDL-c, embora a resposta possa variar substancialmente. Já os estudos observacionais não oferecem forte suporte à ideia de que o consumo moderado de ovos (até um por dia) seja prejudicial em relação ao risco de DCV, especialmente em pesquisas realizadas na Europa11.
Resultados de três grandes coortes prospectivas americanas e uma revisão sistemática em 2020 mostraram que o consumo moderado de ovos (até um por dia) não estava associado ao risco de doenças cardiovasculares. A situação foi similar para doenças coronarianas e acidentes vasculares cerebrais. O consumo de ovos parece estar associado a um risco ligeiramente menor de doenças cardiovasculares em coortes asiáticas12, possivelmente devido ao padrão alimentar dessas populações. No entanto, quando os ovos são parte de uma dieta rica em açúcares e alimentos ultraprocessados, o risco aumenta13.
A evidência de que o consumo de ovos, por si só, promova o risco e o desenvolvimento de DCV é questionável, considerando a complexidade do padrão alimentar, atividade física e predisposição genética. Embora algumas pesquisas indiquem que um maior consumo de ovos pode estar associado a um aumento do risco de DCV em pessoas com diabetes5,9 nem todos os estudos confirmam esses achados, especialmente após ajustes para a dieta de base.
Por fim, a relação entre o consumo de ovos e DCV continua controversa, apesar de décadas de pesquisa, evidenciando a falta de evidência robusta14. As diretrizes e as declarações de posicionamento contemporâneas à redução do risco de DCV, como as “Diretrizes Dietéticas para Americanos 2020-2025” e a Sociedade Europeia de Cardiologia, não emitem orientações explícitas sobre o colesterol. Contudo, recomenda-se não ultrapassar 500 mg de ingestão, uma vez que foi observada a elevação dos níveis séricos².
Diante das hiperglicemias pós-prandiais em pessoas com diabetes, que contribuem para a condição aterogênica, é importante o cuidado alimentar. Assim, as pesquisas referidas aqui defendem a ideia do consumo de até um ovo por dia3,11,12. A mensagem final é que devemos ser cautelosos e não permitir que a influência midiática prevaleça sobre a evidência científica. Apesar das divergências, a análise geral sugere que o consumo excessivo de ovos não deve ser incentivado15,16 e a prática de atividade física adequada é relevante para ajudar na metabolização do colesterol, considerando também a existência de indivíduos hiporresponsíveis e hiperresponsíveis.

1 – LI, Man-Yun et al. Association between egg consumption and cholesterol concentration: asystematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Nutrients, v. 12, n. 7, p.1995, 2020.
2 – BERGER, Samantha et al. Dietary cholesterol and cardiovascular disease: a systematicreview and meta-analysis. The American journal of clinical nutrition, v. 102, n. 2, p. 276-294, 2015.
3 – XIA, Peng‐Fei et al. Dietary intakes of eggs and cholesterol in relation to all‐cause and heart disease mortality: A prospective cohort study. Journal of the American Heart Association, v. 9, n. 10, p. e015743, 2020.
4 – ZHAO, Bin et al. Associations of dietary cholesterol, serum cholesterol, and egg consumption with overall and cause-specific mortality: systematic review and updated meta-analysis. Circulation, v. 145, n. 20, p. 1506-1520, 2022.
5 – SHIN, Jang Yel et al. Egg consumption in relation to risk of cardiovascular disease and diabetes: a systematic review and meta-analysis123. The American journal of clinical nutrition, v. 98, n. 1, p. 146-159, 2013.
6 – LARSSON, Susanna C.; ÅKESSON, Agneta; WOLK, Alicja. Egg consumption and risk of heart failure, myocardial infarction, and stroke: results from 2 prospective cohorts. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 102, n. 5, p. 1007-1013, 2015.
7 – QUINTÃO, Eder Carlos Rocha. Does eating eggs matter?. Archives of Endocrinology and Metabolism, v. 66, p. 152-156, 2022.
8 – FULLER, Nicholas R. et al. Effect of a high-egg diet on cardiometabolic risk factors in people with type 2 diabetes: the Diabetes and Egg (DIABEGG) Study—randomized weight-loss and follow-up phase. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 107, n. 6, p. 921-931, 2018.
9 – Li Y, Zhou C, Zhou X, Li L. Egg consumption and risk of cárdio vascular diseases and diabetes: a meta-analysis. Atherosclerosis. 2013; 229(2):524–30.
10 – CARTER, Sharayah et al. Eggs and cardiovascular disease risk: an update of recente evidence. Current Atherosclerosis Reports, v. 25, n. 7, p. 373-380, 2023.
11 – VIRTANEN JK, Larsson SC.Eggs-a scoping review for Nordic Nutrition Recommendations. Food Nutr Res. V 68.Feb 6 2024.
12 – DROUIN-CHARTIER, Jean-Philippe et al. Egg consumption and risk of cardiovascular disease: three large prospective US cohort studies, systematic review, and updated meta-analysis. bmj, v. 368, 2020.
13 – YAKTI, Fatima Alzahra Hasan; LI, Ming; SHI, Zumin. Higher egg consumption and incidente cardiovascular disease in Chinese adults-10-Year follow-up results from China health and nutrition survey. Nutrition, Metabolism and Cardiovascular Diseases, v. 34, n. 11, p. 2537-2545, 2024.
14 – FORMISANO, Elena et al. Effect of egg consumption on health outcomes: An updated umbrella review of systematic reviews and meta-analysis of observational and intervention studies. Nutrition, Metabolism and Cardiovascular Diseases, p. 103849, 2025.
15 – ZHUANG, Pan et al. Egg and cholesterol consumption and mortality from cardiovascular and different causes in the United States: a population-based cohort study. PLoS medicine, v. 18, n. 2, p. e1003508, 2021.
16 – WANG, Yue; LI, Ming; SHI, Zumin. Higher egg consumption associated with increased risk of diabetes in Chinese adults–China Health and Nutrition Survey. British Journal of Nutrition, v. 126, n. 1, p. 110-117, 2021.

Nutricionista

Membro  do Departamento de Nutrição SBD

Professora Associada da UFPE