Dia Mundial da Saúde e Nutrição – Acompanhamento Nutricional no Diabetes 

A terapia nutricional é um componente integral do cuidado personalizado ao paciente com diabetes. A intervenção nutricional individualizada, conduzida por profissionais especializados, busca alinhar o plano alimentar às necessidades clínicas, metabólicas e aos objetivos terapêuticos de cada indivíduo. Essa estratégia envolve acompanhamento contínuo, orientações para mudanças comportamentais e adaptação da alimentação às condições e preferências de cada um, favorecendo maior adesão ao tratamento.

Além disso, uma intervenção nutricional adequada pode auxiliar na prevenção e no manejo de complicações associadas ao diabetes, como hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e comprometimento renal. Dessa forma, a terapia nutricional deve ser integrada às demais estratégias terapêuticas, incluindo o tratamento farmacológico e outras intervenções relacionadas ao estilo de vida,compondo um plano de cuidado abrangente e centrado no paciente.

O artigo intitulado: “Medical nutrition therapy for the management of type 2 diabetes mellitus”, publicado em 2025, discute o papel da terapia nutricional no manejo do Diabetes Mellitus Tipo 2.

O artigo destaca a dieta mediterrânea como uma das abordagens alimentares mais eficazes no manejo do diabetes mellitus tipo 2. Esse padrão alimentar é caracterizado pelo alto consumo de frutas, verduras, legumes, grãos integrais, azeite de oliva, oleaginosas e peixes, além da menor ingestão de alimentos ultraprocessados e gorduras saturadas. De acordo com a literatura, a adesão a esse padrão alimentar está associada à melhora do controle glicêmico, além de contribuir para a redução de processos inflamatórios e do estresse oxidativo presentes em indivíduos com diabetes (Billingsley e Carbone, 2018).

Os benefícios da dieta mediterrânea estão relacionados, em grande parte, à presença de compostos bioativos, como polifenóis e ácidos graxos ômega-3, que atuam na modulação de processos metabólicos e inflamatórios. Além disso, esse padrão alimentar tem demonstrado efeitos positivos na modulação da microbiota intestinal, promovendo a produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), como butirato e acetato. Esses metabólitos microbianos desempenham papel importante no aumento da sensibilidade à insulina e na redução da inflamação sistêmica (Florkowski et al., 2024). 

Dessa forma, a dieta mediterrânea representa uma importante estratégia nutricional não farmacológica para o manejo do diabetes tipo 2, podendo contribuir para a melhora do controle glicêmico e para a prevenção de complicações quando associada a um acompanhamento nutricional individualizado (Barrea et al., 2025).

Outra estratégia nutricional discutida na literatura envolve as dietas de baixo valor energético (Low-energy diets – LEDs) e de muito baixo valor energético (Very-low-energy diets – VLEDs), utilizadas principalmente em indivíduos com obesidade. Essas dietas variam entre aproximadamente 800 e 1.200 kcal por dia no caso das LEDs e menos de 800 kcal nas VLEDs, tendo como principal objetivo promover perda de peso significativa e melhorar o controle glicêmico. Programas estruturados que utilizam substituição total da dieta por fórmulas alimentares demonstram resultados superiores a longo prazo quando comparados a abordagens dietéticas convencionais (Churuangsuk et al., 2022).

O estudo clínico DiRECT demonstrou que uma intervenção estruturada baseada em dieta de baixa caloria, aplicada na atenção primária, levou à remissão do diabetes em 46% dos participantes após um ano de acompanhamento. O protocolo incluiu uma fase inicial de substituição total da dieta por um período de 8 a 12 semanas, seguida pela reintrodução gradual de alimentos e suporte comportamental. Mesmo com muitos participantes permanecendo acima do peso considerado ideal, foram observadas melhorias metabólicas importantes, como redução da necessidade de medicamentos para controle glicêmico (Lean et al. 2018; Lean et al. 2019).

Os benefícios metabólicos dessas dietas estão relacionados principalmente à redução rápida do acúmulo de gordura no fígado, o que melhora a sensibilidade à insulina. Esse processo também reduz a produção hepática excessiva de glicose e a inflamação sistêmica, fatores importantes no desenvolvimento e progressão do diabetes tipo 2 (Lim et al. 2011).

Entretanto, a manutenção da perda de peso pode representar um desafio a longo prazo devido a fatores comportamentais e ambientais. Alguns indivíduos também podem apresentar efeitos adversos transitórios, como fadiga ou desconforto gastrointestinal. Assim, apesar dos benefícios, essas dietas apresentam limitações e devem ser implementadas dentro de um plano de terapia nutricional estruturado e acompanhado por profissionais de saúde. A individualização do tratamento e o acompanhamento contínuo são fundamentais para garantir segurança, adesão e melhores resultados clínicos (Barrea, 2025).

Outra abordagem nutricional de destaque no manejo do diabetes mellitus tipo 2 são as dietas cetogênicas, devido aos seus potenciais benefícios metabólicos. Inicialmente utilizadas no tratamento da epilepsia refratária, essas dietas passaram a ser investigadas em contextos metabólicos por promoverem redução significativa na ingestão de carboidratos e estimularem a produção de corpos cetônicos. No entanto, o termo “dieta cetogênica” engloba diferentes protocolos alimentares, que variam quanto à quantidade de carboidratos e ao valor energético total, o que pode gerar interpretações equivocadas quando essas intervenções são analisadas de forma generalizada (Castellana et al. 2020). 

De modo geral, essas dietas são classificadas de acordo com o grau de restrição de carboidratos. Dietas com baixo teor de carboidratos apresentam ingestão inferior a 130 g por dia, enquanto dietas cetogênicas mais restritas limitam o consumo a menos de 50 g diários. Essa restrição promove uma mudança metabólica na qual o organismo passa a utilizar lipídios como principal fonte de energia, aumentando a produção de corpos cetônicos e favorecendo melhorias no controle glicêmico e em parâmetros cardiometabólicos em indivíduos com diabetes tipo 2 (Trimboli et al. 2020). 

Entre as variações desse padrão alimentar, destacam-se as dietas cetogênicas isocalóricas, que mantêm a ingestão energética total enquanto restringem carboidratos,  e podem ser particularmente relevantes para indivíduos que buscam melhorar a sensibilidade à insulina e o controle glicêmico sem induzir perda de peso substancial (Kim et al., 2022; Rosenbaum et al., 2019) e as terapias cetogênicas com restrição mais severa de calorias, que combinam restrição de carboidratos com ingestão calórica abaixo de de 800 kcal por dia (Barrea et al., 2024; Muscogiuri et al., 2021). Essas intervenções são geralmente utilizadas em pacientes com obesidade ou descontrole metabólico importante e devem ser realizadas sob supervisão profissional. Evidências indicam que tais estratégias podem promover melhora da sensibilidade à insulina e redução da hemoglobina glicada.

Os benefícios metabólicos das dietas cetogênicas estão associados à melhora da resistência à insulina, à redução da inflamação e à maior utilização de gorduras como fonte energética. Além disso, a produção de corpos cetônicos, especialmente o β-hidroxibutirato, pode exercer efeitos anti-inflamatórios e contribuir para a melhora da função metabólica. Entretanto, a adoção dessas dietas deve ser realizada com cautela, especialmente em pacientes que utilizam determinados medicamentos para o diabetes, pois podem ocorrer efeitos adversos, como hipoglicemia ou aumento do risco de cetoacidose diabética. Portanto, a implementação dessas estratégias nutricionais deve ocorrer dentro de um acompanhamento clínico e nutricional adequado (Farres et al., 2010; Jamshed et al., 2019).

Referência do artigo: BARREA, Luigi et al. Medical nutrition therapy for the management of type 2 diabetes mellitus. Nature Reviews Endocrinology, v. 21, n. 12, p. 769-782, 2025.

  1. Billingsley, H. E. & Carbone, S. The antioxidant potential of the Mediterranean diet in patients at high cardiovascular risk: an in-depth review of the PREDIMED. Nutr. Diabetes 8, 13 (2018). 
  2. Florkowski, M., Abiona, E., Frank, K. M. & Brichacek, A. L. Obesity-associated inflammation countered by a Mediterranean diet: the role of gut-derived metabolites. Front. Nutr. 11, 1392666 (2024). 
  3. BARREA, Luigi et al. Medical nutrition therapy for the management of type 2 diabetes mellitus. Nature Reviews Endocrinology, v. 21, n. 12, p. 769-782, 2025.
  4. Churuangsuk, C. et al. Diets for weight management in adults with type 2 diabetes:
    an umbrella review of published meta-analyses and systematic review of trials of diets for diabetes remission. Diabetologia 65, 14–36 (2022). 
  5. Lean, M. E. et al. Primary care-led weight management for remission of type 2 diabetes (DiRECT): an open-label, cluster-randomised trial. Lancet 391, 541–551 (2018). 
  6. Lean, M. E. J. et al. Durability of a primary care-led weight-management intervention for remission of type 2 diabetes: 2-year results of the DiRECT open-label, cluster-randomised trial. Lancet Diabetes Endocrinol. 7, 344–355 (2019). 
  7. Lim, E. L. et al. Reversal of type 2 diabetes: normalisation of beta cell function in association with decreased pancreas and liver triacylglycerol. Diabetologia 54, 2506–2514 (2011). 
  8. Castellana, M. et al. Efficacy and safety of very low calorie ketogenic diet (VLCKD)
    in patients with overweight and obesity: a systematic review and meta-analysis. Rev. Endocr. Metab. Disord. 21, 5–16 (2020). 
  9. Trimboli, P., Castellana, M., Bellido, D. & Casanueva, F. F. Confusion in the nomenclature of ketogenic diets blurs evidence. Rev. Endocr. Metab. Disord. 21, 1–3 (2020).
  10. Barrea, L. et al. A new nomenclature for the very low-calorie ketogenic diet (VLCKD): very low-energy ketogenic therapy (VLEKT). Ketodiets and nutraceuticals expert panels: “KetoNut”, Italian society of nutraceuticals (SINut) and the Italian association of dietetics and clinical nutrition (ADI). Curr. Nutr. Rep. 13, 552–556 (2024). 
  11. Muscogiuri, G. et al. European guidelines for obesity management in adults with a very low-calorie ketogenic diet: a systematic review and meta-analysis. Obes. Facts 14, 222–245 (2021). 
  12. Farres, J. et al. Revealing the molecular relationship between type 2 diabetes and the metabolic changes induced by a very-low-carbohydrate low-fat ketogenic diet. Nutr. Metab. 7, 88 (2010). 
  13. Jamshed, H. et al. Early time-restricted feeding improves 24-hour glucose levels and affects markers of the circadian clock, aging, and autophagy in humans. Nutrients 11, 1234 (2019).
  14. Kim, E. R. et al. Short term isocaloric ketogenic diet modulates NLRP3 inflammasome via B-hydroxybutyrate and fibroblast growth factor 21. Front. Immunol. 13, 843520 (2022). 
  15. Rosenbaum, M. et al. Glucose and lipid homeostasis and inflammation in humans following an isocaloric ketogenic diet. Obesity 27, 971–981 (2019). 

Escrito por:

Nutricionista do Departamento de Nutrição da SBD
Nutricionista do Hospital das Clínicas da UFPE
Residência em Saúde da Família pela UPE
Mestre em Políticas Públicas pela UFPE
Doutoranda em Nutrição e Saúde Pública pela UFPE